Refúgio Sobre Quatro Rodas

O skate sempre vai representar a minha paz." É assim, sem rodeio, que começa uma história construída na rua desde os sete anos de idade. Morador de favela, sem muito reconhecimento e hoje também sem patrocínio, ele faz questão de lembrar que foi o skate — junto das pessoas certas que cruzaram seu caminho — que abriu portas para uma vida melhor. "Graças a Deus, o skate e as pessoas boas que passaram pelo meu trajeto... consegui ter uma vida melhor." Mais do que manobras ou campeonatos, a caminhada sempre foi sobre resistência.

O primeiro contato com o skate veio de dentro de casa. Enquanto o irmão mais velho e a turma ocupavam a rua com palquinho de madeira, corrimão e rampas construídas por eles mesmos, o moleque só observava de longe. Era pequeno demais para entrar na session. Até que um acidente mudou tudo. Depois de fraturar a perna em um acidente de moto, o irmão decidiu parar de andar e passou adiante o skate novinho e um par de tênis. Foi ali que a história ganhou impulso. Com o tempo, outras pessoas também foram aparecendo para fortalecer a caminhada. "Meu irmão foi uma pessoa fundamental pra eu chegar até aqui hoje, mas não vou esquecer quem esteve comigo quando o perrengue chegava."

Escola da rua

Se existe uma sala de aula que marcou sua vida, ela sempre esteve do lado de fora. Para ele, andar pela cidade ensina muito mais do que acertar uma linha. "Ensina a respeitar o próximo... aprendemos e conhecemos os lugares, culturas diferentes." Entre rolês e descobertas, veio uma certeza: "Na prática e na teoria, a melhor matéria é o skateboard!"

Boa parte dessa vivência aconteceu em Mogi das Cruzes. A Praça Matriz virou praticamente uma segunda casa. Bordas, transições e o chão de mármore fizeram parte da evolução e das melhores lembranças. Não só o pico, mas toda a cidade virou cenário de uma história construída no shape.

Representar sempre

A correria nunca foi desculpa para desistir. Muito pelo contrário. Os dias que antecediam os campeonatos eram quase sempre marcados por perrengues. "Dormíamos em banco de praça, passando veneno, falta de condição, mas sempre com pensamentos positivos." O importante era encontrar um jeito de colar e representar. E, como ele faz questão de lembrar, "não teve um dia sequer que Deus não nos ajudou nisso". Hoje, quando olha para trás, vê que toda dificuldade também fez parte das melhores conquistas.

O que fica

A motivação continua sendo a mesma de quando era criança: a diversão e a inspiração de ver os mais velhos andando na rua, emprestando revistas e apresentando vídeos de skate dos anos 90. Esse ciclo de incentivo nunca deixou de existir.

Mesmo reconhecendo que "hoje em dia o skate está mudado", o sentimento permanece intacto. O skate continua sendo seu refúgio, seu lugar de paz e a prova de que a rua pode transformar destinos. No fim das contas, a gratidão fala mais alto. Gratidão ao irmão, aos parceiros que nunca abandonaram a caminhada e a todos que fizeram parte dessa trajetória. Como ele resume com orgulho, carregando a quebrada no peito: "MOGI SKATE GANG!!"